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Entretenimento

‘O Assassinato de Roger Ackroyd’, 100 anos: por que o romance de Agatha Christie foi eleito o melhor policial de todos os tempos?

maio 27, 2026Nenhum comentário0 Visitas

A escritora policial Agatha Christie
Alamy
Em 2013, a Associação Britânica de Escritores Policiais (CWA, na sigla em inglês) se reuniu para eleger, como parte das comemorações de seu 60º aniversário, o melhor romance do gênero de todos os tempos.
Participaram da disputa, entre outros títulos, “O Cão dos Baskervilles”, de Arthur Conan Doyle, e “O Silêncio dos Inocentes”, de Thomas Harris. Computados os 600 votos, “O Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie, foi eleito o vencedor.
Antes de virar livro em 27 de maio de 1926, “O Assassinato de Roger Ackroyd” (ou The Murder of Roger Ackroyd, no original) foi publicado, sob o formato de folhetim, no jornal London Evening News, entre 16 de julho e 16 de setembro de 1925.
À época de sua publicação em 54 capítulos, a história se chamava “Quem Matou Ackroyd?”. No Brasil, o romance, traduzido por Leonel Vallandro, chegou às livrarias em 1933.
“Esse romance tem características imitadas, mas jamais igualadas, que fazem dele um clássico instantâneo: uma delas é o plot twist [reviravolta] no final. Na época, nem tinha esse nome, mas hoje é celebrado em livros, filmes e séries do gênero”, observa Renan Castro, editor-assistente da Globo Livros, editora que acaba de lançar uma edição de luxo comemorativa da obra com capa dura, tradução de Renato Rezende e design de Rafael Nobre.
A culpa é sempre do mordomo?
Em “Uma Autobiografia”, Agatha Christie atribui a inspiração para escrever “O Assassinato de Roger Ackroyd” a duas pessoas: primeiro, ao seu cunhado, James “Jimmy” Watts, marido de Margaret “Madge” Frary Miller; e, segundo, ao lorde Louis Mountbatten. “Foi, de longe, o [livro] que obteve mais sucesso”, declarou a autora de 66 romances policiais, 153 contos e mais de 30 peças.
Certa vez, ao terminar a leitura de um romance policial, James Watts soltou um muxoxo de impaciência: “Hoje em dia, quase todo mundo vira criminoso, até mesmo o detetive. Gostaria de ver um Watson que virasse criminoso”, queixou-se o cunhado da escritora, fazendo alusão ao Dr. John H. Watson, fiel escudeiro de Sherlock Holmes e, na maioria das vezes, o narrador dos livros protagonizados pelo detetive mais famoso de todos os tempos.
Tempos depois, uma ideia parecida foi sugerida por Mountbatten. “Ele me escreveu sugerindo que a história fosse narrada na primeira pessoa por alguém que, no final, fosse o criminoso”, relata a autora no livro de memórias. “Minha mente vacilava ao pensar em Hastings assassinando alguém”, admite, em referência ao Capitão Arthur Hastings, melhor amigo de Hercule Poirot em oito romances e 26 contos.
Como não imaginava Hastings como um assassino frio e calculista, o que Agatha Christie fez? Providenciou a viagem dele para a Argentina, onde ele passou a morar depois de casado com Dulcie Duveen, e promoveu o médico da pacata King’s Abbot, Dr. James Sheppard, a narrador da história. “Muitos dizem que O Assassinato de Roger Ackroyd é enganador. Mas, se o lerem com cuidado, verificarão que estão errados”, pondera a autora.
“É, sem dúvida, o melhor romance policial do século 20”, reitera o escritor Jared Cade, autor de “Secrets from the Agatha Christie Archives” e “Agatha Christie and the Eleven Missing Days”, inéditos no Brasil.
“Parte de sua simplicidade enganosa reside no fato de parecer um mistério de assassinato convencional. Estudos literários sobre ficção policial debatem se ela jogou limpo com o leitor ou se desrespeitou as regras do gênero. A maioria dos leitores hoje aceita que é responsabilidade deles suspeitar de todo e qualquer personagem, um por um.”
“Agatha Christie revolucionou o gênero e surpreendeu os leitores. Muitos deles ficaram confusos, principalmente porque o assassino é muito simpático”, arremata a escritora Susanne Lieder, autora da biografia “Agatha Christie” e a “Trajetória do Mistério” (2025). “Pessoalmente, adorei a história e me diverti muito com Caroline. É a minha personagem favorita!”
Estrela em ascensão
“O Assassinato de Roger Ackroyd” não foi o primeiro livro escrito por Agatha Christie. Antes de sua publicação, há cem anos, a autora já havia lançado, segundo seu site oficial, cinco romances policiais: “O Misterioso Caso de Styles” (1920), “O Inimigo Secreto”(1922), “Assassinato no Campo de Golfe” (1923), “O Homem do Terno Marrom” (1924) e “O Segredo de Chimneys” (1925).
“Há uma lenda de que Agatha Christie teria se tornado famosa por causa de “O Assassinato de Roger Ackroyd”. Já era uma estrela em ascensão!”, afirma o escritor e biógrafo Tito Prates, autor de “Agatha Christie: Uma Biografia de Verdades” (2022) e presidente da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst). “No começo dos anos 1920, já tinha publicado mais de 70 contos em revistas dos Estados Unidos e da Inglaterra.”
Adivinhe quem vem para matar
Em 2015, apenas dois anos depois da eleição promovida pela The Crime Writers’ Association (CWA), The Home of Agatha Christie, o site oficial da escritora britânica, também promoveu uma enquete mundial para apurar o livro favorito dos fãs da Rainha do Crime.
Dessa vez, o título escolhido não foi “O Assassinato de Roger Ackroyd” (1926) e, sim “E Não Sobrou Nenhum” (1939). Logo atrás, veio “O Assassinato no Expresso do Oriente” (1934).
“‘E Não Sobrou Nenhum’ é um suspense que, em determinadas cenas, flerta com o horror”, descreve Jean Pierre Chauvin, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor dos livros “Crimes de Festim” (2017) e “Por que Ler Agatha Christie” (2025).
“O fato de os dez convidados estarem isolados numa ilha, sem possibilidade de voltar ao continente por causa da tempestade, faz dessa história uma trama em ampulheta.”
Ao todo, participaram 15 mil leitores de mais de cem países. Duas curiosidades: um em cada quatro (24%) tinha entre 25 e 34 anos, e o Brasil foi o terceiro país que mais votou, seguido por Estados Unidos e Reino Unido.
Uma das 15 mil votantes é a jornalista pernambucana Duda Menezes. Em seu canal no YouTube, já postou vídeos sobre “Morte na Mesopotâmia” (1936), “Cem Gramas de Centeio” (1953) e “A Extravagância do Morto” (1956), entre outros livros.
“‘O Assassinato de Roger Ackroyd ‘reúne o melhor de Agatha Christie: a presença de Hercule Poirot, um vilarejo pacato, incontáveis suspeitos, álibis engenhosos, uma narrativa envolvente e manipulação, muita manipulação”, enumera a influenciadora digital de literatura.
“O domínio de narrativa é capaz de chocar qualquer pessoa. Você termina de ler e já quer retomar a leitura para perceber tudo o que deixou escapar.”
Os três primeiros colocados, no ranking dos leitores de Agatha Christie, foram: “E Não Sobrou Nenhum” (21% dos votos), “O Assassinato no Expresso do Oriente” (16%) e “O Assassinato de Roger Ackroyd” (8%). “Morte no Nilo” (1937) e “Os Crimes ABC” (1936) completam o Top 5 da enquete mundial.
Politicamente correto
No Brasil, a obra de Agatha Christie é publicada por três editoras: Globo Livros, L&PM e HarperCollins. “O conceito de ‘melhor’ é subjetivo. Se formos avaliar pela audácia da solução, por exemplo, O “Assassinato de Roger Ackroyd” merece o título. Mas, dependendo do critério do leitor, outros títulos da autora, como “A Casa Torta” (1949), podem ser considerados superiores”, pondera Alice Mello, editora-executiva da HarperCollins Brasil.
“A Casa Torta” é um dos livros de Agatha Christie favoritos do escritor Raphael Montes. Não por acaso, foi eleito o predileto do autor de “Suicidas” (2012), “Dias Perfeitos” (2014) e “Jantar Secreto” (2016), entre outros, em um ranking virtual de 2023. “Tem o assassino mais improvável que Agatha Christie já criou”, fez mistério. Dois anos depois, em um novo Top 5, A Casa Torta caiu para a terceira colocação. Em seu lugar, Montes elegeu “E Não Sobrou Nenhum”.
Originalmente, “E Não Sobrou Nenhum” se chamava “O Caso dos Dez Negrinhos” (ou Ten Little Niggers, no original). O título fazia referência a uma cantiga de roda do século 19, mas foi mudado depois de ser tachado de racista e de causar polêmica em países como a Alemanha.
Em outras nações de língua portuguesa, “O Caso dos Dez Negrinhos” ganhou diferentes títulos como “Convite para a Morte”, “As Dez Figuras Negras” e “O Vingador Invisível”.
Uma curiosidade: “E Não Sobrou Nenhum” era o favorito da própria Agatha Christie. Em 1972, em resposta a um admirador japonês, a autora divulgou sua lista de preferências. “Dez pessoas precisavam morrer sem que o livro se tornasse ridículo ou o assassino ficasse demasiado óbvio”, escreveu em sua autobiografia. “O Assassinato de Roger Ackroyd” ocupou o segundo lugar do ranking, e “Convite para Um Homicídio” (1950), o terceiro.
Vale a pena ler de novo
Dos 44 livros de Agatha Christie publicados no Brasil pela HarperCollins, 11 foram traduzidos por Érico Assis e nove por Samir Machado de Machado.
“O meu favorito entre os que traduzi é o mais óbvio: ‘Assassinato no Expresso do Oriente’”, afirma Assis. “Primeiro, porque a resolução é magistral e, segundo, porque eu o traduzi duas vezes: em prosa e em quadrinhos.” A versão em graphic novel que Assis traduziu é adaptada por Bob Al-Greene.
Se “Assassinato no Expresso do Oriente” é o livro mais popular e “E Não Sobrou Nenhum” o mais influente, “O Assassinato de Roger Ackroyd” é o mais engenhoso de Agatha Christie. Quem afirma isso é Samir Machado de Machado.
“É quase impossível para o leitor desvendar o mistério final”, desafia o escritor e tradutor. “É um dos poucos livros dela que vale a releitura. Justamente para ver como o passo a passo do assassino foi mascarado.”
Um livro, várias versões
Ao longo dos anos, “O Assassinato de Roger Ackroyd” ganhou inúmeras adaptações. A primeira delas, em 1928, foi para o teatro. A peça, escrita e dirigida por Michel Morton, ganhou o nome de “Álibi”.
Agatha Christie não gostou muito da montagem porque Morton sumiu com sua personagem favorita. Em “Uma Autobiografia”, a autora admite que Caroline Sheppard serviu de inspiração para Jane Marple, a “heroína” de 12 romances e 21 contos.
“O Assassinato de Roger Ackroyd” deu origem a uma radionovela protagonizada por Orson Welles em 1939, uma HQ ilustrada por Bruno Lachard em 2007 e um documentário dirigido por Jean-Christophe Klotz em 2016.
“Tenho um pouco de vergonha de dizer que, antes de ser convidado para interpretar Poirot, nunca havia lido Agatha Christie”, admite David Suchet no livro “Viajando com Agatha Christie” (2025). “Quando me ofereceram o papel, não sabia se deveria dizer ‘sim’ ou ‘não’.”
Convite aceito, o ator inglês interpretou o detetive belga em 70 episódios da série “Agatha Christie’s Poirot” (1989-2013). “O Assassinato de Roger Ackroyd” foi um deles.

Fonte: G1 Entretenimento

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